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Let's dance.

Ou a baby gosta muito de música ou detesta. Digo isso por três episódios em épocas diferentes que desaguaram no mesmo sintoma: enjoo.

Primeiro foi no Coquetel, durante o show do Dinossaur Jr. Eu estava com dois meses e parará. Para quem foi é fácil lembrar da muralha de aplificadores que ficava na retaguarda das guitarras e da raquetada no pé do ouvido quando começou a primeira música. O show terminou com a mãe ligeiramente surda e a barriga latejando. Coincidência ou não, fui da platéia direto para o banheiro com vontade de vomitar.

O segundo episódio foi sábado passado, no Acre. Rolou uma festinha-inferninho, que eu adoro, com set list de Haymone, Cecília e Tarta, que eu adoro. No começo estava tudo lindo, ao ponto de eu arriscar uma latinha inocente de Skol para dar um brilho a mais na alegria da moçada. Eis que o lugar encheu ao ponto de eu não conseguir mais respirar e nem ficar em pé sem que uma gota de suor não escorresse pela minha coxa. A barriga pulou, ficou rígida e levemente dolorida. Desci para levar um ventinho na Aurora com a esperança de poder voltar. Ali mesmo, com David Bowie saindo pela janela, sentada em um romântico banquinho de madeira às margens do Capibaribe, eu coloquei para fora todo o jantar do aniversário da minha sogra.

O terceiro momento foi em casa. Sempre que posso, coloco fones de ouvido na barriga pra Helô ir se familiarizando com o gosto musical dos pais. Na manhã desta terça, acompanhada de uma tigela de sucrilhos com iogurte, sentei confortavelmente no meu sofá e coloquei Harrison pra embalar minha filhota. All Things Must Pass, pessoal. Aquela coisa, né? Felicidade, hare-hare, gospel, amor, poesia e tudo mais. Depois de umas dez músicas, a barriga deu um salto, endureceu e o café da manhã, que mal tinha entrado, já estava pedindo pra sair.



Então, filha, é bom que tudo isso seja porque você gosta das músicas que papai e mamãe curtem e o sacolejado seja você dançando na placenta. Porque, se for pra ouvir pagode, forró eletrônico, sertanejo ou tecnobrega (nem venham, que brega cabeça é ruim do mesmo jeito), vou te mandar pro convento.

A foto é da já recorrente neste sítio Elle Moss.

Uma ressaca que durou um mês e meio.



Ok, agora vem a parte chata e nem um pouco mágica da gravidez: a fase dos enjôos. Quem teve sabe do que eu estou falando. Você sente fraqueza, sonolência, gosto de metal na boca, vontade de vomitar, sensação de impotência, impaciência, tontura e um olfato extremamente apurado mas muito pouco seletivo, só detecta cheiro ruim.

E cada um que viesse com uma dica para aliviar o ônus da tão sonhada gravidez. “Chupa gelo, que melhora”. “Cheira casca de limão ralado, que alivia”. “Come salgado misturado com doce, que ajuda”. Nada do que eu fazia surtia efeito e a única receita eficaz era dormir para ver se, pelo menos durante o sono, eu voltava a ser uma pessoa normal.

Claro que essa experiência me ensinou algumas coisas que funcionam mas, veja bem, não são regras nem garantem a satisfação do cliente ou o dinheiro de volta.

- Elimine as sopas da sua vida, a não ser aquelas bem cremosas. Quanto mais líquidos, maior era a minha vontade de vomitar.
- Mesmo não ingerindo líquidos, eu não abria mão da água de coco, que ajudava a hidratar, principalmente nos momentos pós-vômito, que foram poucos, porque eu me recusava a colocar pra fora tudo que comia a custa de tanto sacrifício, mas inesquecíveis.
- Banana de manhã cedo também é uma boa pedida. Não é na vitamina nem amassada com leite em pó. É pura mesmo. Como não tem cheiro forte, a banana não atiça o olfato e ainda dá energia para a fadiga matinal. Agora torça para ela não começar a estragar. Banana madura, para um olfato de mulher-prenha-enjoada, é um alarme poderoso que se percebe do hall de entrada do prédio.
- Aproveitando a dica acima, não deixe as frutas ficarem muito maduras na sua cozinha. Ao menor sinal, retire a casca e leve para a geladeira em potes plásticos ou faça salada de frutas. O cheiro é desesperador, depois não diga que eu não avisei.
- Se o seu marido, assim como o meu, fuma, peça para fazê-lo de varanda fechada e, ainda assim, lavar o rosto depois do cigarro. Só de lembrar eu já tenho contrações no estômago.
- A tentação de comer carboidratos simples (pão, massas, batata) é grande, porque não tem muito cheiro nem paladar, mas vá com calma. Troque pelos compostos (integrais) ou, se preferir, pelas raízes. O efeito é o mesmo e você não corre o risco de transformar tudo que conseguiu comer em açúcar.
- Isso tem em qualquer site de gravidez e é a mais pura das verdades: nunca fique muito tempo de estômago vazio muito menos encha o estômago demais. É enjôo na certa e, no caso da primeira opção, você também corre o risco de desmaiar.
- Tomar derivados do leite à noite também não me ajudava muito. Principalmente iogurtes. Eles fermentavam no estômago e o resto da história dá pra imaginar.
- Maçãs são muito úteis também, porque além de matarem a fome e serem fáceis de carregar, ajudam a limpar a boca. Acredite, você vai ficar com enjôo da própria saliva. Mas quanto a isso não tem muito o que fazer não.

Mas não se aperreie. Essa fase passa rápido e depois o conto de fadas começa. Você começa a sentir, sem que enjôos tirem sua atenção, todo o amor proporcionado pela maternidade. Até alguém como eu, que vislumbrava filhos só depois de rodar pelo mundo com uma mochila nas costas (rá), descobre as maravilhas de ser mãe e um talento todo especial, até então desconhecido, com crianças.

Como diz Serginho, não sei como eu conseguia viver antes sem ter um filho no pensamento.

Ilustração tirada do circus museum.