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São Bento, olhai por nós.



Eu e Serginho fizemos, finalmente, o ensaio de fotos da gravidez. Durante meses fiquei sem saber como fazer, onde fazer e com quem. Aí, o marido, sabendo do meu amor por Olinda, sugeriu a Cidade Alta. E nenhum outro lugar me deixa tão em paz quanto o mosteiro de São Bento.

Porque, apesar de não ser católica, eu amo igrejas.
Porque eu já assisti a uma missa com canto gregoriano nesse mosteiro e me emocionei.
Porque se um dia eu decidir casar na igreja, eu quero que seja lá.
Porque é onde eu sempre sinto a presença de Deus.
Porque é no seu largo que o Acho É Pouco se concentra.

Tenho certeza que Helô saiu de lá com todas as bençãos.

Fotos de Clara Gouvêa

Efeitos das 34 semanas.

Como não dava pra ser tranquilo o tempo inteiro, agora, no finalzinho da gestação, eu estou ficando mais cansada do que o habitual. Dá uma fraqueza nos braços e nas pernas, o corpo fica sem forças e a falta de ar já faz parte da minha rotina.

Para dormir, a pequena não me dá aperreios. Como eu já disse, as mexidas são bem suaves, colaborando com o sono da mamãe aqui, mas como as posições permitidas estão mais restritas, eu acordo, vez ou outra, com dor no osso do mucumbê. Aí, mudar de posição, sempre me limitando entre esquerda e direita, é inevitável. Isso sem contar com a maldita culpa que leva você a achar que não está na posição mais confortável para a sua baby.

Fora que o ritmo aqui no trabalho não está careta. Sete horas da noite, horário oficial para sair da Ampla, virou nove e meia, os dois andares de escada que eu preciso subir até chegar na minha sala estão ficando cada vez mais cansativos e os meus pés estão começando a dar os sinais dessa reta final.

Não estou reclamando, porque comparado a outros problemas que muitas gestantes passam os meus são melzinho na chupeta. E o que importa, na verdade, é que ela está linda, com 45cm, 2.230kg, cabelinhos à mostra e muita saúde. No resto, eu me viro sem o menor sentimento de sacrifício.

Hormônios do capeta.

Um intervalo de 5 minutos entre a completa euforia e o choro descabido, quem aguenta? Nem eu.



A foto e o corpinho de violão são da minha querida e talentosa amiga Ivi.

Modéstia à parte.



Eu estou me achando uma grávida linda. Não engordei muito, meu rosto continua sequinho, a comissão de frente está turbinada e minha barriga, finalmente, ganhou uma forma pontuda e durinha. Preciso ir mais à praia, pra suprir a carência de vitamina D. É bom que eu pago de Leila Diniz e ainda ganho uma cutis morena jambre.

Quando eu começar a hidro e as drenagens, então, ninguém me segura.

E por falar em primo.

Olha Lolô batendo um papo com Benjamin. A barriga de fora foi uma iniciativa do pai, porque a mãe é muito low profile pra isso.

Rituais de uma grávida.

Manhã:
- Passar óleo de amêndoas na barriga, cintura, quadris e seios.
- Após o banho, untar o corpo com hidratante normal e a região entre os seios e o quadril com Mater Skin, que é caro pra cacete.
- Como não pretendo competir com Helô no quesito quem chora mais, passar um creme supermegapower nos seios para enrijecer a pele e minimizar os efeitos desastrosos da futura amamentação.
- Antes de trocar de roupa, colocar aquela delícia que atende pelo nome de meias Kendall.
- Colocar uma calça de gestante que não aperte muito a cintura nem o baixo ventre e tentar se convencer que seu marido vai continuar te achando sexy.
- Passar protetor solar para evitar as famosas manchas nas maçãs do rosto.
- Priorizar o consumo de leites, sucrilhos, iogurte, frutas e pão integral.
- Levar uma fruta ou uma barrinha de cereais para o trabalho.

Tarde:
- Independente do cardápio, não deixar de consumir feijão, carne, verduras e legumes.
- Suco só de frutas e com adoçante (apenas Stévea ou Linea).
- Fruta, de preferência, cítrica pra facilitar a ingestão do ferro.
- Antes de sair para o trabalho, reaplicar o protetor solar.
- Levar uma barrinha de cereais e um biscoito integral para o lanche.
- Lembrar de tomar o ácido fólico (para quem já esquecia de tomar a pílula, heim?).

Noite:
- Priorizar o consumo de raízes, que são carboidratos compostos.
- Consumir proteínas (leite, queijo, ovos).
- Consumir torradas integrais e frutas no lanche.
- Repetir os rituais do banho matinal.
- Colocar um top resistente porque, sabe como é, amizade, a lei da gravidade é bem cruel depois da gravidez.
- Assistir programas leves, já que ninguém quer um filho psicopata por aí.
- Colocar um travesseiro embaixo dos pés para ajudar a nossa amiga circulação a não criar patas de elefante.
- Deitar, sempre, do lado esquerdo pelos mesmos motivos do item anterior.

Sempre:
- Carregar, para todos os lados, um copo ou uma garrafinha de água, que além de minimizar os efeitos dos inchaços e das estrias, é muito saudável para o bebê.
- Fazer, pelo menos, 10 xixis por dia.
- Tomar banho de sol na varanda de casa também vale para deixar a pele do seio mais grossa, mas se o maridão não curtir a ideia de ver sua mulher virar índia, uma boa luminária 5 minutos em cada peito também rola.
- Sempre que estiver deitada, levantar de lado e nunca de frente, para não forçar o baixo ventre.
- Evitar, a todo custo, gorduras, frituras, conservas e doces (diabetes gestacional não é brincadeira não, minha gente).
- Não dar atenção a sua mãe quando ela disser "gravidez não é doença". Lembre-se que na época dela, mulheres engravidavam com 20 anos e não na casa dos 30, e você, com essa idade, apesar das belezas da fase, não é mais uma menina cheia de energia. Então, fuja dos trabalhos pesados e dos esforços. Coloque o orgulho de lado e use o maridão sem parcimônia.
- A partir do terceiro trimestre, ande sempre com um pouquinho de sal, que sua pressão tende a cair nesta fase.


Ufa.
Isso é apenas uma amostra dos cuidados que uma mulher da categoria das prenhas deve ter. Apesar disso tudo, eu juro que é uma delícia. Tenha fé, colega.

Momento Phoebe.

Como a minha barriga tá ficando redondex, tô começando a tirar onda com a situação. Coloco umas blusinhas mais apertadas, pra evidenciar o bucho, e testemunho a cara das pessoas que não sabem do fato com aquele ar de "pergunto ou não pergunto?". Ainda mais porque, diferente de muitas barrigas, a minha não é pontuda, e a primeira coisa a crescer, na verdade, foi a largura da minha cintura.

Ontem mesmo presenciei dois momentos distintos: um com uma cliente durante uma reunião de trabalho e outro com um casal de amigos no Pão de Açúcar. Foi engraçado ver o olhinho deles percorrendo o caminho do rosto até a minha barriga como se eu não estivesse notando. Parece que você está pelada ou com um decote ofensivo, porque o desconcerto é batata. O meu não, claro, o dos outros.

Aí, a vontade é de sustentar a conversa e soltar umas pistas, como aquela leve alisadinha na barriga ou a mãozinha nos quartos, até surgir um "nossa, você está grávida". Uma tentação para o meu espírito de porco devolver com um constrangido "não..." e deixar o sujeito na maior saia justa. Ainda não tive coragem, mas das próximas vezes não respondo por mim.



A foto é do Flickr de Nabaz.

Mamãe eu quero mamar.

Meus peitos crescem mais rápido que minha barriga. Acho que minha filha vai nascer pelo mamilo.

4 meses.

Para quem pensa em engravidar, eu vou logo dizendo: essa fase é sensacional. Os enjôos, os cansaços excessivos, os abusos e as neuroses já passaram. O bucho começa a aparecer ao ponto de você não ficar constragida em entrar numa fila preferencial. As pessoas já olham para você não como uma gorda, mas como uma grávida, e você começa a desfrutar do prazer, inlcusive, daquela alisadinha marota na barriga com óleo de amêndoas durante o banho. À noite, a situação complica um pouco, porque depois do jantar bate um banzo fenomenal. E como o sofá da gente não é um dos mais confortáveis do mundo, levando-se em conta que por orientações médicas sempre deito virada para o lado esquerdo, levanto, com frenquência, cheia de dor nos quartos. De resto, tá tudo lindo.



Já comecei aqueles rituais de grávida, muito prazeros, por sinal. Coloco fones de ouvido com o set list pessoal dos pais na barriga pra Helô não correr o risco de gostar de pagode quando crescer, leio livrinhos leves em voz alta e converso com ela com uma certa regularidade. Já serginho, todas as noites, bate altos papos com meu umbigo, com direito a palavras doces, beijos e declarações de amor. Com a barriga redondinha e sem o famigerado bucho-quebrado-de-mulher-que-limpa-parabrisas-no-sinal, tão característico do começo da gravidez, também rola começar a usar aquelas calças de cintura superbaixa, que acompanhadas de uma blusinha mais justa, colar e rasteirinhas (ou um all star velho de guerra), confere a qualquer caminhada até o trabalho um glamour diferente.

Não ter do que reclamar nessa fase soa até meio monótono, mas se a gravidez inteira fosse assim, acho que eu viveria grávida.

Tá, esqueci a abstinência da cerveja. Então, retiro o que disse.

Menino ou menina?



Dependendo da boa vontade do(a) baby, a gente fica sabendo nessa sexta. Que gire a roleta.

Juliana, Sergio, baby e o mundo maravilhoso das contas.

Em que estágio da gravidez é normal começar a comprar coisinhas? Porque eu não comprei uma meia sequer. Não que eu não queira, mas é que não tem sobrado um certo para tal no final do mês. Fora que, como ainda não sabemos se o quarto vai estar mais para lilás (rosa, nunca) ou para azul, estamos estrategicamente adiando o endividamento.

Dos parentes, herdamos alguns dos itens mais onerosos da interminável lista infantil: berço, armário, banheira, carrinho, bebê conforto, alguns brinquedos, bolsa de maternidade e cadeira de amamentação. Só lembrando que, como só nasce macho nessa cidade, e isso inclui os netos da minha família e da família de Serginho, a maior parte dos objetos está na paleta dos azuis, então vamos torcer por um menino ou por uma menina de muita personalidade. Já dos amigos, ganhamos algumas roupinhas de recém-nascido muito lindas, incluindo dois conjuntinhos do glorioso tricolor pernambucano que o pai exibe com muito orgulho.

Mas o volumoso, o numérico, o cifroso da lista ainda está por vir. Não me olhe assim, eu juro que sou uma mãe legal. Mas é que o apartamento foi gerado antes do baby, então suas dívidas precisam ser prioridade para que se abra caminho para as seguintes. Prometo que até janeiro a gente compra, aos pouquinhos, aqueles itens pequeninos de moder, de chupar, de sacudir, de agarrar, de vestir, de dormir e de num-sei-quê-mais-lá.

Já a decoração do quarto, essa só fica para janeiro, quando eu vou tirar férias e ter uns dias de folga para dar dedicação exclusiva. Oxalá que o(a) baby não decida nascer nesse tempo, porque aí eu vou ter que dormir no colchonete das visitas.



A ilustração é desse rapaz sem talento aqui.

Susto.

Ó, só para deixar claro, já já eu entro na parte boa da gravidez, eu prometo. Mas antes dos enjôos entrarem em ação, outra coisa tirou o meu sono: escapes, talvez provocados por algum esforço físico. Para quem não sabe, escapes são pequenos sangramentos que às vezes rolam durante a gravidez e que não necessariamente são sintomas de processo abortivo. É que, durante a fixação do saco gestacional, alguns vasos sanguíneos podem se romper liberando pequenas quantidades de sangue. Não é muito não. Pouquinho mesmo e de cor escura, como no começo ou no final da menstruação. Até aí, tudo bem. O detalhe é que eu não sabia disso e, depois do ocorrido, tudo que acontecia da cintura para baixo era tragédia.

Liguei para a minha obstetra que, por ser objetiva demais e que por isso mesmo virou ex, me disse à queima-roupa: isso pode ser um princípio de aborto. Choro eu de um lado, chora Serginho do outro. Nem o telefonema para Ivana, a progesterona receitada pela médica (até então desnecessária, porque a minha estava bem alta devido ao meu constante consumo de soja) ou as palavras doces dos meus amigos de trabalho conseguiram por de volta o meu pensamento nos eixos.

Isso é castigo (maldito colégio de freiras), Deus não gostou de eu ter me apavorado quando soube da gravidez (maldito colégio de freiras), agora que eu estou feliz e tranqüila vão me tirar meu filho por falta de merecimento (maldito colégio de freiras).



Dois meses de desespero e tensão depois, percebo que o baby nem chegou e já está me ensinando um bocado de coisas. A principal delas está no universo da auto-suficiência: não gosto de incomodar, não gosto de pedir ajuda, não gosto de dever favores, não gosto de me sentir dependente. Eu sou assim. Ou, pelo menos, era. Porque desde que engravidei descobri que as conjugações na primeira pessoa vão para o saco e que fazer tudo em nome da bandeira gravidez-não-é-doença é teimosia, para não dizer ignorância. Que eu, depois de grávida, não posso continuar agindo como se nada tivesse acontecido, dando conta, integralmente, de tudo que cai no meu colo e que esse orgulho todo não vai me levar a lugar nenhum. A não ser pra minha cama, deitada, de molho, rezando e pedindo a Deus, Alá, Buda, Jeová e todas as forças que não machuque o meu(a) filho(a).

Dramas à parte, já estou no segundo trimestre, está tudo sob controle e os riscos maiores já passaram. Tomara.

Essa é uma das fotos lindíssimas de Elle Moss.

Segura a minha mão e pula.

Medo. Nervoso. Choro. Incertezas. Foi assim que começou o meu dia 8 de agosto. Serginho, que passou o domingo trabalhando, ficou encarregado de trazer da farmácia o assustador teste de gravidez. Até ele chegar em casa eu só enxergava em slow motion e as pessoas, reais e da TV, parecia falar uma língua que não era a minha.

Aí você pode me perguntar: como assim um casal que está há tanto tempo junto, que tem sua própria casa e uma certa estabilidade financeira pode estar tão assustado? Bem, primeiro porque, como uma digna libriana que precisa ter sempre o controle da sua vida e que passa manteiga dos dois lados do pão para ter certeza que vai torrar, eu estava me planejando para 2012. Isso. Com tudo sob controle e dívidas quitadas, seria o momento ideal, além de achar 36 anos uma idade linda e altamente cabalística.

Mas, assim como a mãe, esse baby já chegou mostrando que não gosta de receber ordens e veio na hora que queria. O pai, de quem eu espero que herde, além dos olhinhos apertados, o sorriso doce e a eterna fé nas pessoas, chegou em casa, me entregou o teste e vibrou, com toda alegria que é só dele, as duas listrinhas gritando no pedaço de papel. Enquanto eu chorava de susto e nervoso, ele me levantou e me abraçou tão forte que eu pude sentir seu coração quase que varando a caixa do peito para encontrar o meu. E foi esse sentimento que me acalmou e me fez enxergar o presente que tínhamos ganho da vida. Serginho em especial, porque foi nesse exato momento, cheio de sentimentos misturados, que comemoramos o nosso primeiro dia dos pais.



Foto linda de Tony Takai, retirada do blog de Dani Arrais.

Once upon a time.

Agora que os enjôos passaram e que, igualmente, meu mau humor e a completa indisposição para andar mais que meio metro se foram, encontrei energias para começar a escrever este blog, especialmente dedicado aos meus amigos distantes, que sempre pedem notícias, e também aos próximos que, por culpa da minha absoluta falta de tempo, não estão muito atualizados. Então, aqui vai.